Dor abdominal
A dor abdominal recorrente nas crianças é um motivo frequente de consulta em Medicina Geral e Familiar. Caracteriza-se por episódios que variam no tempo, intensidade e frequência alternando com períodos assintomáticos.
A aparatosidade do quadro clínico gera uma grande procura de consultas médicas urgentes, com subsequente realização de numerosos exames complementares de diagnóstico e, por vezes, internamentos hospitalares que não são eficazes na resolução do quadro e podem representar um risco acrescido ao bem estar da criança.
Em 1909, o pediatra inglês G. F. Still escreveu que não conhecia outro sintoma que fosse tão obscuro na sua origem como a dor abdominal em cólica, na criança. Actualmente, volvido um século, a afirmação deste pediatra mantém-se actual.
A maioria das investigações sobre a dor abdominal recorrente começaram após a Segunda Guerra Mundial. Os primeiros estudos de interesse foram realizados por John Apley, na década de 50, que reconheceu elevada frequência deste quadro no início da idade escolar, o predomínio no sexo feminino, a existência de queixas abdominais nos familiares das crianças, a associação entre a dor abdominal e alterações emocionais nestas crianças e a ausência de evidência da eliologia orgânica da dor.
Nas duas últimas décadas, o aumento do nível de conhecimentos da fisiopatologia gastrointestinal associado ao aperfeiçoamento dos meios de diagnóstico permitiu o esclarecimento de vários quadros de dor abdominal recorrente.
Segundo a primeira descriçâo de Apley, a dor abdominal recorrente define-se pela existência de pelo menos três episódios de dor abdominal, por um período de pelo menos três meses, suficientemente importantes para interferir com as actividades quotidianas da criança.
Na prâtica esta definição inclui crianças e adolescentes que procurem cuidados médicos, ainda que a duração da dor não se enquadre na definição proposta por Apley.
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